É difícil
falar sobre este trabalho como é difícil falar sobre uma memória nossa. Algo íntimo
bom ou mau que faz parte de nós e por algum motivo nós não esquecemos.
Erário
de memórias é um tesouro feito de linho que guarda as memórias de um público.
Além do que lá guarda ser tudo menos público. Entre conversas e relações
formadas com o público, o desenho nasce como ato de presença e documentação
feito a partir da transferência de um gesto de carinho. Este erário é um
arquivo que pode não ter qualquer valor monetário mas é rico para quem faz
parte dele.
Os
desenhos, os objectos e as fotografias que o compõem são o que ficou de algo que
é difícil de falar mas bonito de se fazer. Uma troca de tesouros, uma troca de
carinhos, um momento íntimo. O material utilizado na documentação são
relacionados com o têxtil que nos remete a temporalidade desta ação. O tempo da
memória, o tempo que ela é recordada o tempo do momento. O crochet materializa
o tempo enquanto a lã materializa a fragilidade do público.
Erário de memórias é feito a partir de partilha, uma pessoa que fala e outra que ouve enquanto faz crochet. Posteriormente existe uma troca, a memória é transformada em tesouro. É materializada a partir do bordado e da feltragem da lã que lentamente dá corpo a algo indizível e ilegível. Este trabalho é uma tentativa de libertação dos intervenientes de se confrontarem com as suas memórias mais difíceis tornando-as em algo precioso.
Fig. 1 Documentação do Espaço em que foi realizada a ação
Fig.2 Objetos usados durante o ato performativo
Fig.3 Relatos e Desenhos realizados durante a ação (Resultado da Performance)
"Sentir o Desenho" surge como uma vontade de criar uma relação com o interveniente da ação, de modo a que o mesmo não veja o desenho a que participa mas o sinta.
O objetivo é que o performer desenhe a cara do público como se o acarinha-se, resultando num desenho de um rosto feito de dedadas que acarinhou a cara do público durante um espaço de tempo.
O tempo do público e o tempo do performer diferem, pois como um se encontra de olhos tapados a sua percepção do tempo é mais lenta. Assim sendo existe uma partilha de um momento contado em dois tempos, onde o desenho só existe graças a essa relação. A ação não decorre sem performer ou sem público, pois é a presença dos dois que faz o desenho.
Fig. 2 Documentação da performance (Vista do performer)
Neste trabalho pretendi explorar com maior profundidade a
relação entre o desenho e o contexto performativo do desenho como instrução. O objetivo do trabalho foi então simular uma reação alérgica desencadeada pelo contacto com um animal, neste caso específico, um gato. Para simular essa
reação o intuito foi provocar um sintoma específico e comummente associado a
esse tipo de reações, o espirro.
Para isso forneço apenas uma instrução simples e direta: "Smell It". Esta instrução é um desafio feito ao observador, sendo este livre de executar ou não a instrução. O trabalho é realizado de forma a plantar falsas expectativas no observador em relação às consequências de executar a instrução, sendo surpreendido pela real consequência. Devido a esta expectativa de uma consequência negativa, é normal que o observador se recuse a executar a instrução, especialmente se não se encontrar sozinho com o trabalho.
Devido aos vários elementos que compõem visualmente o trabalho, o observador é, regra geral, induzido a pensar que executar a instrução levará à exposição a um odor desagradável. É neste momento que as expectativas do observador são subvertidas. Não existe um odor desagradável. Existe sim uma exposição a pimenta o que desencadeia o objetivo da experiência: um espirro.