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3.2.23

TRANSFERÊNCIA DE USO | Margarida Bezerra Bastos

 




1- Uma Lista de sequências e consequências de ações que um dia provoca sobre cada corpo. 


Picar.... Repicar.....Picar.....Repicar.....Picar....Repicar.....Picar....Repicar.....


Uma execução mecânica do gesto PICAR, picar o papel com alfinetes que caem sobre si mesmos não aguentando o ato infletido sobre estes. Um desenho que se autodestrói, jogando com a fragilidade dos materiais e a força/violência da ação/palavra. 

O foco enquanto construção era procurar um gesto sequencial com repetição contínua sobre os mesmos padrões de ritmo e frequência da ação que gerou o movimento original. 

30 minutos contínuos deste padrão, 30 minutos na procura da abstração, 30 minutos de reflexão. 

Um transe. 

Ação destrutiva                                                                                                                                    Desenho construído                                                                                                                                     Pica  e repica                                                                                                                                          Repete e respira                                                                                           Pica....Repica.....Pica.......Repica......



2- Há ações que repetimos consecutivamente, mas não nos debruçamos sobre elas, não tomamos consciência do acontecimento ou da sia intensidade. 





Engatar e Remoer

Uma mudança de escala acontece para realçar e transferir estas ações passageiras/corriqueiras para algo performativo e deslocado da sua habitualidade, e consequencialmente intensificando o movimento. 

Aqui prendo as mesas atrás de mim e sobre mim, tentando depois deslocar-me por entre elas para alcançar a próxima, esmagando-me e contorcendo, ao mesmo tempo gerando e criando tenção no corpo infletindo a prisão do maxilar e remoer dos dentes. 

É engraçado como o simples ato de apertar um soutien e um tique podem estar conectados e serem trabalhados e ampliados.  


3- 



Gota a gota a tinta sai e salpica a superfície.                                                                                                   Arrasta-se pelo ar e cai aleatoriamente sobre ela.                                                                                             Uma memória de um movimento fica marcado.                                                                                            Um movimento descolado e deslocado.                                                                                                          O desenho espacial é capturado. 


A brincadeira de vir Salpicar algo que é o desperdício foi intencional, uma maneira de chamar a atenção e "decorar" o contentor no meio do jardim com uma atividade que podemos considerar suja no meio do desenho. 

A ação terminou quando todo o depósito do contentor ficou 'contaminado' pela tinta.                          


23.1.23

Transferências de uso. André Marques


1

Cabelo à frente, na testa. Verão. O suor escorre sem que o possa controlar a fim de me manter bem. Chegar à testa com os dedos, limpar o suor. Um envolvimento que, da contingência, se torna cuidadoso. Os dedos deslizam.


Agora fazer tudo no papel. Com pigmento, com pincel, com os dedos novamente. Sentir e atentar. Perceber os vários toques, os vários ritmos, os tempos para a transferência. 




                                                                     
                                                              

Perceber também o desenho que segue da natureza do gesto.

 



2.

A segunda performance nasce da simultaneidade de duas ações díspares, a fim de as coordenar. 
Espetar uma agulha numa almofada de costureiro; engolir. 
Calças azuis; almofada vermelha (por coincidência).





O ato surge de uma tentativa, interna e sensorial, de pensar a função do corpo para a sua saciedade imaginada.

Positivo; negativo.

         Dentro; fora.


3


Neste último momento, tenta-se usar um gesto do desenho, transportando-o para o espaço envolvente.

Lembrei-me de pegar numa trincha, pincel apto a deslizar em movimentos retilíneos. A tentativa é a de perceber como o corpo dirige, pela noção de espaço e de movimento que comporta, para o espaço negativo. Permanece o movimento. Desafia o vazio, atuando sobre ele, pelo comando e pela motricidade fina.






12.11.22

TRANSFERÊNCIA DE USO | Maria Inês Gomes

 

TRANSFERÊNCIA DE USO | Maria Inês Gomes

 

Partindo de uma lista de verbos, que descrevam ações do corpo ou de manutenção do mesmo, e de uma segunda lista que compila ações/verbos ligados ao léxico do desenho, foi proposta a realização de três exercícios que explorassem a descontextualização e transferência desses mesmo gestos para novos contextos/campos performativos.

 

Exercício 1


Transferência-de-uso de uma ação para os suportes e processos do desenho




 

Num primeiro momento, elegi o verbo lavar, como gesto/ação para transferir do campo quotidiano, para o campo do desenho. O ato de lavar, é geralmente ligado ao ato de cuidar e manter um espaço/um corpo, mas se pensarmos no ato literal de lavar um desenho, essa ação remeter-nos-ia para a sua destruição/degradação. Contudo, ao utilizar pigmento e um desperdício, e proceder ao ato de lavar uma folha de papel com o mesmo, produz-se um desenho/registo dessa ação. Esse ato repetido e frenético, gradualmente, foi ensopando e sujando a folha e produzindo ruído na mesma, sendo de seguida colocada num estendal improvisado para secar, como se de uma toalha se tratasse. Assim, cria-se uma antítese entre contextos, tornando o ato de lavar algo, uma ação de acrescento, e não de retiro; algo que não limpa ou purifica, mas sim que suja e contamina.


Exercício 2

Transferências entre duas ações de campos performativos distintos







Num segundo momento, foram escolhidos dois verbos não relacionados, um pertencente ao campo da manutenção do corpo – hidratar a pele – e um segundo pertencente ao campo da manutenção do espaço – engomar. Através da conjugação da ação de polos opostos, cria-se uma certa contradição para com cada verbo escolhido. O ato de passar creme no corpo, remete-nos para o ato de cuidar e preservar, bem como o ato de engomar, encaminha-nos num sentido de cuidar e preservar algo a um estado imaculado, contudo ao passar a ferro um corpo não o estaríamos a preservar, mas sim, neste caso, a queimar. Esta ação, pode também ser lida como uma busca focada pelo preservar da beleza, pois subanalisando a questão, genericamente a ação de preservar o corpo é muito vendida e publicitada à figura da mulher (ex: cremes para as rugas), bem como o passar a ferro é um ato doméstico, que conservadoramente, é também muito associado à figura da mulher-cuidadora/ fada do lar. Assim, ao realizar uma ação de cuidado/preservação com um objeto que a danificaria, pode-nos levar a refletir sobre a figura de cuidadora/ faz-tudo e como esta se pode prejudicar ao tentar cuidar de tudo.


Exercício 3

Redireccionamento de um ato associado aos meios do desenho







Num último momento, devíamos pegar num verbo/ ação conotado ao desenho e transpô-lo para um espaço físico fora do papel. Escolhi então o ato de gravar, neste caso com recurso ao buril, e transpus esse gesto para uma zona de terra do jardim da faculdade. Criou-se assim um ciclo de criação de linhas, como quem escava canteiros na terra, e da sua subsequente diluição, por meio da ação de limpar a sujidade que vai surgindo ao gravar algo. Num gesto repetido, a ação cria e apaga o próprio registo do gesto, deixando o local no seu estado original, pré intervenção. Um pormenor engraçado, registado no vídeo da ação, foi o surgimento de um fio de plástico branco à medida que ia gravando a terra. Este fio ia-se desenterrando e surgia do solo, como a materialização acidental da linha que se apagava a si própria.



11.11.22

Francisca Costa, Retórica do Ato Performativo

O quê que autorrepresenta um individuo?

Que desvios posso eu fazer a essa forma de autorrepresentação?

   Realizei um conjunto de seis vídeos em que cada vídeo corresponde a uma ação que se repete no meu quotidiano. Captei os sons do momento bem como os movimentos em redor procurando vincar bem a falta de um corpo físico para interagir nos diferentes frames (cenários).

   Nos primeiros segundos de vídeo captei o momento de jantar em família que já é um ritual muito respeitado por si só na minha rotina, o momento em que posso partilhar um pouco do meu dia com aqueles que me são mais queridos e descontrair ao final do dia. Retirando-me da cena apenas conseguimos ver uma cadeira vazia, um prato com comida, um copo com bebida e as mãos de alguém que partilha uma história. Estes diferentes elementos são chave para todo o desvio pretendido, são elementos que vão deixando pequenas questões na mente do espectador.

   Na segunda cena vemos um chuveiro ligado, água a correr e o som da mesma, mas nada nos indica que está ali a presença de um corpo sem ser os conhecimentos adquiridos que temos de que um chuveiro ligado indica a presença de um corpo.

   A terceira filmagem é um sofá, onde se ouve o som de uma televisão e um balde de pipocas está pousado.

   Seguimos para uma filmagem bastante íntima onde apresento a minha cama, um lugar de conforto e que é apresentada com os lenções abertos, quase num gesto de abraçar um corpo (inexistente).

   Quase por último, temos então a panela ao lume a borbulhar, mas ninguém por perto e por fim encontramos um carro onde o lugar do passageiro está vazio.

   Em todas as situações criadas é sugerido ao espectador que existe ali um vazio que deveria estar ocupado por uma ação humana, mas que está em falta.

   Procurei que os ângulos das filmagens dessem ênfase ao pretendido nos vídeos e que se fosse criando uma certa ansiedade no espectador de saber o que se vai passar, se efetivamente algo se vai alterar. 

    Entramos aí no grau zero que seria por exemplo uma pessoa a cozinhar, mas onde ocorre um desvio- a panela está ao lume a ferver, mas a cozinha está vazia.

   O desvio ocorre pela mudança do estado natural das coisas, existe uma inadequação e uma discrepância clara entre o que seria esperado e o que realmente acontece.

   Analisando à posteriori o trabalho realizado crio que se trata de modo retórico de tropo projetado. No tropo projetado o desvio acontece quando apresentamos o oposto daquilo que queremos dizer e, neste caso, o exercício de autorrepresentação em nada faz referência ao corpo a que se refere, ao nome a que se refere, é nos apenas apresentado um conjunto de ações "vazias".

   Estas ações "vazias" são na verdade representativas de todo um dia a dia que, esse sim, representa uma pessoa em específico.

Há um lugar para a retórica no pensamento contemporâneo sobre as imagens e sobre os processos artísticos?

   O ser humano é naturalmente retórico e a prática artística está repleta de retórica. É essencialmente na retórica que está o cerne do questionamento e da reinvenção artística que é o elemento propulsor da criação.  É sempre necessário o grau zero, a isotopia, para através dos processos da retórica repensar as estruturas e se causar os desvios e estranhamentos- a alotropia.

   Não só existe lugar para a retórica no pensamento contemporâneo, como esta é a chave para os processos artísticos e a criação não se esgotar, no meu ponto de vista cabe-nos a nós artista contemporâneos utilizar a retórica como ferramenta de criação.

 




10.11.22

Cláudia Campos, TRANSFERÊNCIA-DE-USO

                Ação- Esfregar /Espalhar

                PASTEL SECO S/PAPEL

Ação : Esmagar
Papel aderente com Tinta de Óleo s/papel







7.11.22

Francisca Costa- Transferência do Uso



   O primeiro momento de ação surgiu através de uma prática que consistia em focar-me em três verbos distintos: cortar, esfregar e acender. Estes três verbos foram a minha companhia e o meu foco durante os 30 minutos de exercício, tornando-se quase compulsivos nos últimos momentos de exercício. A maior dificuldade encontrada durante este processo foi alienar-me de todos os pré conceitos do que é o desenho e concentrar-me no ato (performativo) da ação. Utilizei a técnica de fechar os olhos e procurar reproduzir os movimentos sem pensar no desenho como obra final e como resultado.



  Num segundo momento, associei o ato de abraçar com estender.    Durante o tempo de atuação foquei-me em representar a ação de estender a roupa, mas transferir o sentimento e os movimentos involuntários feitos pelo corpo num abraço.

   Procurei durante o exercício transferir as respirações mais profundas e as contrações que o corpo faz durante o ato de abraçar enquanto fazia os movimentos de baixar, apanhar a roupa da bacia, sacudir e estender na corda.



   
   No último momento, investiguei o movimento de pintar, as pinceladas e procurei deslocá-lo do seu ambiente original e académico e utilizar o próprio corpo para o representar. Durante o ato subi para uma mesa onde seria normal a ação decorrer, mas amarrei o meu próprio cabelo e simulei o ato de pintar na mesa.

   Esta associação cabelo/ pincel acontece pela natureza destes dois objetos se poder associar naturalmente e os movimentos normalmente feitos com a mão passaram a ser feitos com o corpo todo e sobretudo com a cabeça.





Penso que com este agregado de exercícios experimentais foi-nos bastante fácil compreender os pilares fundamentais da transferência do uso bem como o seu modo de atuação. 



3.11.22

workshop #1

             

                                                                           

                                                                           Exercício 1

                                    Verbo/Ação: Maquilhar/ Colocar rímel nas pestanas




                                                                Pastel de óleo e carvão sobre papel

      


                                                                   

                                                                  Exercício 2

                                                           Verbo/Ação: Bocejar






Pastel de óleo sobre papel







Exercício 3

Verbo/Ação: Comer/ Mexer no cabelo/ Atar sapatos













                                                                  Exercício 4
                                            Verbo/Ação: Apagar/ Limpar (borracha)













Workshop #1 - Transferência de Uso - Alejandra Pardo

Exercício 1

Limpar




Neste primeiro desenho, tentei imitar os movimentos circulares que faço quando limpo cristais ou outras superfícies grandes. Empreguei o carvão como material, mas não os clássicos paus de carvão que deixam marcas irregulares no papel; senão carvão em pó, que cria manchas lisas e sem textura quando é estendido com um pano. A ideia era repetir esses movimentos até o papel ficar gris uniforme, como se estiver perfeitamente limpo, mas preferi mostrar uma imagem do processo na que se vê o gesto de desenhar círculos com o pano. 

Esfregar






No segundo desenho, “sujei” o papel com tinta da China e deixei-o secar. Depois, esfreguei com um pincel grosso molhado com água, retirando a tinta como se retira a sujeira quando esfregarmos com um esfregão. Depois limpava-o num pote de plástico, que fazia a função do balde do esfregão, e de vez em quando trocava a água, quando estava suja demais para conseguir limpar. Repeti o ato até que não consegui retirar mais tinta. 


Facer scroll




No terceiro desenho, transferi a ação de fazer scroll com o telemóvel, ou seja, mover o conteúdo do ecrã nas redes sociais para ver novas publicações sem limite, sem reparar no que estarmos a ver. Para isso, repetimos o gesto de deslizar o dedo de abaixo a arriba, infinitas vezes durante horas. Tentei imitar esse gesto desenhando linhas curtas de abaixo a arriba, e alguma noutro sentido, com uma barra de sanguina, sobre um papel longo. O resultado é uma linha longa e descontínua, como a que “desenho” no ecrã sem deixar rastro.

Exercício 2

Fazer scroll + maquiar-se





Nesta performance, combinei o gesto de apli
car a máscara de pestanas co de fazer scroll no ecrã do telemóvel. Ambos coincidem no ato de deslizar para cima, e fundi-os imitando o gesto do scroll no lugar onde faço maquiagem. A postura do corpo e a expressão da cara, e a atitude de desinteresse e tédio são os mesmos que tenho quando olho para o telemóvel, deslizando o dedo durante horas, sem reparar em nada realmente.
 

Exercício 3

Decalcar




Quando estava sem luz no apartamento e acendi a lanterna do telemóvel para ver, vi como se projetavam as formas da garrafa e o copo na parede. Isto criou desenhos efémeros ao se decalcar as formas dos objetos e os reflexos que se viam por serem de vidro e cheios de água.