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4.2.17

A superfície do documento: entropia


Tal como Stephen Farthing defende, a documentação ou registo não deve ser um processo meramente focado na captação técnica ou da essência de um evento, mas muito mais recorrente é sobre localizar e criar estratégias para comunicar interesse nos objectos. (FARTHING, pág. 142). 
Para um espaço vegetativo abandonado, elege-se um princípio de documentação e desenho assente nos processos de transposição ou transferência - procurando criar um documento que se auto-sustena, fazendo circular a informação entre modelos de passagem e contacto de superfícies. 
Na ideia de passagem reside a reciclagem entre as matérias, os suportes e os dispositivos de leitura (desenho, fotografia, etc.). Procura-se assim falar de entropia.
A mesma entropia de ação que Smithson procurou nas suas peças de land art - como em 'Asphalt Rundow (1969), onde uma grande quantidade de asfalto é despejada sobre uma colina mundana  e abandonada. O material é deixado à sua condição de tranformação, 'tornando a entropia visível' ("entropy made visible" na entrevista por Allison Sky, 1963 a Robert Smthson). 

Do mesmo modo, a entropia refere à redundância da informação e à noção de repetição e desgaste, tal como Arnheim explora quando nos conta a história da criança que se cansou de desenhar as janelas do arranha-céus. (figura à direita retirada do livro de ARNHEIM: Entropy and Art pág. 4)

Passagem, deslocação, transposição e transferência lidam com a perda de informação. Estas são as tarefas que ligam em sincronia as ações que movem esta produção.


2. Transferência por ação mecânica. Sucessão de imagens com gradação de pixelização
(mais definição para imagem mais pixelizada)


3. Transferência manual da mesma imagem com o mesmo grau de definição.




3. (esquerda) Calcografia a tinta sépia (direita) desenho a verniz mole.O suporte do papel é usado para desenhar sobre uma chapa de zinco coberta com uma camada de verniz-mole. O desenho que fica decalcado no verso da folha relaciona o deslocamento e espelho da imagem. O verniz é removido da chapa sem aciduar e imprimi-se a superfície da chapa com a informação gráfica que já existente.


4. Walter de Maria. Mile Longe Drawing. 1968        5. O corpo é uma superfície. grafite/ papel. 2017




 6. Instrução: andar por cima do caderno de viagem. Transferência por pressão e contacto entre páginas desenhadas e páginas em branco. Dois exemplares (lado direito)




7. s/título. 2017. manipulações digital a partir 
de desenho digitalizado



8. s/título. 2017.
 transferência a toner sobre gaze


10. Instrução: desenhos de bolso
papel de impressão a toner dobrado
2017



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AA.VV (2004) ERWIN WURM: I love my time. I don't like my time. Edtiora Hatje Cantz. Berlim

ARNHEIM, Rudolf (1971) ENTROPY AND ART: an essay on disorder and order. University of California Press. Berkeley and Los Angeles. EUA


CAMPANY, David
[internet] (2008) Thomas Ruff: Aesthetic of the Pixel. IANN MAGAZINE no. 2. disponível em: http://davidcampany.com/thomas-ruff-the-aesthetics-of-the-pixel/. acedido dia 29 de janeiro de 2017


FARTHING, Stephen (2009) "
Recording: Towards and Intelligence of Seeing" Em: GARNER, Steve (ed.) (2009) Writting on Drawing: Essays on Drawing Pratice and Research. Chicago: Chiago University Press


FLAM, Jack (ed.) (1996)  Robert Smithson; The Collected Writtings. University of California Press: Los Angeles. EUA


FIESEL, Laura
[internet] Walter de Maria. The Art Story: Modern Art Insignt. disponível em: http://www.theartstory.org/artist-de-maria-walter-artworks.htm. acedido dia 28 de janeiro de 2017


GRUPO 
µ (1993) Trattado del Signo Visual. Madrid: Catédra

KACHUR, Lewis (2007) Robert Rauschenberg: Transfer drawings from 1960s. Johnathan O'Hara Gallery. Nova Iorque

MOMA
[internet] (2006) Vija Celmins. Ocean: 7 steps #2. Nova Iorque. disponível em: 
https://www.moma.org/collection/works/100221?. acedido dia 29 de janeiro de 2017


WEISS, Monika (2004)
"Performing the drawing - Performing lament in public domain". Em: ALMEIDA, Paulo L; DUARTE, Miguel B; BARBOSA, José M. (ed.) Drawing in the university today. FBAUP-I2ADS: Porto. cáp. DUT, pág. 27-36









14.12.16

desapareceu ' ninguém reparou


Levei uma coisa e ninguém deu falta. 
Voltei mais tarde e roubei de novo. Roubei quantas vezes precisei. 
Não há um soluço atento à mudança vigente; o espaço está em silêncio, sem ferida latente. 

Desapareceu, ninguém reparou.

Considerei como acção desviante roubar (ou recolher) um monte de pó de uma parede descascada.
Assim, o furto é uma acção a ser documentada - não por via meramente comunicativa mas pela possibilidade de ênfase teatral (como categorizou AUSLENDAR). Este princípio gera novas narrativas e outros personagens que divergem do acontecimento factual. Neste aspecto, também estes desenhos poderiam ser aquilo que KAPROW define como 'rumor calculado': uma construção mais ou menos fictícia, capaz de comprovar e convencer sobre a veracidade de um determinado acontecimento.

A acção de facto sucedeu. A performance que no entanto procuro falar não é somente a que se lê nas imagens.

O pó foi um elemento deslocado para uma outra acção performativa - o desenho. Primeiro foi roubado, posteriormente camuflado como uma cifra sobre o seu próprio desaparecimento; ressurge no desenho, e ao mesmo tempo que permanece invisível, está em citação ao seu lugar de origem. Tal como AUSLANDER explica sobre a performance de categoria teatral:


"The space of the document (...) thus becomes the only space in which the performance occurs." (AUSLANDER, pág. 3)

Performance e documento tornam-se assim indistinguíveis. Se por um lado, o documento refere-se visualmente à performance, a sequência da acção actua nas circunstâncias gráficas do desenho. 

A evidência do pó é a prova do seu roubo, perpetuando um conflito entre confissão e camuflagem. 

"Accuracy is not just a question of skill it can also be affected by honesty, free will and genuine mistakes." (FARTHING, pág. 145)







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AUSLANDER, Philip (2006). "The Performativity of Performance Documentation". PAJ: a journal of Performance and Art. 84. Vol 28, September 2006

FARTHING, Stephen (2009) "Recording: Towards an Intelligence of Seeing". In GARNER, Steve (ed.) (2009) Writting on Drawing: Essays on Drawing Pratice and Research. Chicago:Chicago University Press


1.12.16

o pequeno, o escondido e o absurdo - after ERWIN WURM

instruções por David Lopes
desempenhadas por Clara Silva




A instrução-ação [1] é um complemento entre imagem e texto: a gravura(1) é uma sátira à Revolução Americana de 1776 e na margem pode-se ler: "Tea-tax-tempest or Old Time with his MAGICK-LANTHERN", que se refere à lâmpada a explodir no fundo da imagem. Em letras muito pequenas (tamanho 3) escrevi a instrução: 'bebe um copo de água numa tempestade (have a teapot(2) in a tempest)' - um trocadilho do provérbio 'Não faças uma tempestade num copo de água."

                                                                                                         "The situation is absurd and yet absolutely familiar (...)"(3)

A ação da Clara reformulou a instrução através de um processo de seleção, ignorando partes da instrução para que outras formas de construção de sentido ganhassem ênfase, como a fábula e o humor. 

"By embracing doubt and the absurd, such actions require thinking (...) 
to actively participate in the constuction of meaning."(4)





Assim a Clara, interpreta uma planta que se rega para beber. Esta abordagem revela um objecto que é próximo do seu universo pessoal, mas a instrução garante um novo ponto-de-partida. Isto fez-me pensar no 'gap' que Geraldine Barlow menciona quando nos fala do absurdo em Erwin Wurm.

"In this gap exists the possibility to look again at ourselves and the world we inhabit, to remake the familiar."(5)

A instrução-desenho [2] procurou não estabelecer um limite de meios ou suportes, etc. Na verdade, pouco refere-se à ação do desenho e podia ser aplicada até para a criação de outra ação. A sequência de um gesto - socialmente reconhecível - que diz ao outro para se calar, ilustra a instrução. Foi pensada um pouco em relação à instrução anterior - que comunicava pela invisibilidade - manteve uma pretensão de sentido misterioso e de leitura não-imediata, para procurar falar do absurdo.




"Daily objects overcome materiality and utility to become mysteriously emblematic, 
widly free-ranging in their possible significance and use."(6)

Aqui, a sensibilidade da Clara respondeu ao movimento dos dedos e estabeleceu uma analogia com o processo de tear/coser pela leitura de uma linha. O que em suma, responde ao modo que eu procurava que o receptor respondesse - encontrar um sentido próprio, na imperceptibilidade absurda.   


"(...) the open-ended challenge of the inexplicable generates an unfolding field of questions, and we are asked 
to take leave of our more logical instincts in order to imagine more ambiguous possibilities."(7)




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(1) (1778) de Carl Gottlieb Guttenberg (Nuremberga, Alemanha 1743~1790, Paris, França). Acedido dia 16 de Novembro de 2016.
Disponível em: 
http://www.britishmuseum.org/research/collection_online/
(2) Na tradução inglesa do provérbio, ‘copo de água’ fica ‘teapot’.
(3) AA.VV (2004) ERWIN WURM: I love my time. I don’t like my time. Editora Hatje Cantz. Berlim. p. 23
(4) Idem. p. 25
(5) Idem. p. 23
(6) Idem. p. 28
(7) Idem. p. 23

16.10.16

agente involuntário


 [1] desenhar com espirro

Conduzi o exercício com a ideia de obter características formais previamente estabelecidas. 
1. queria produzir grão. 
2. queria manter um anonimato, ou seja, não queria trabalhar com acções 
auto-propostas, evitando conflitos de índole pessoal na percepção de mim mesmo.

Por isso identifiquei no corpo reações/ações sobre as quais não tenho controlo ou consciência de controlo. Sendo alérgico ao pó, segui a lógica de produzir desenhos com espirros. O pó é a matéria, o espirro é o instrumento do desenho. O processo é assim encadeado num sentido voluntário por um mecanismo não-voluntário. 

"(...) do not flatter yourself that you know the things nature performs for herself, but jecoice in knowing the purpose of those things designed by your own mind"1
 - Leonardo Da Vinci









[2] esperar (um espirro) no escuro



1. esperar (ação passiva)
2. espirro (verb. espirrar - ação implícita) 
3. no escuro (não ligar a luz - não ação)


Pensando nas ações que derivam do verbo espirrar e por analogia visual, associei 'fechar os olhos' a 'ficar no escuro'. 'Espirrar no escuro', pareceu-me falar de uma redundância sobre o negro. A tela negra ou o video é assim usado enquanto documentação de uma acção sonora e não visual. A experiência serviu para especular sobre a alteração do comportamento do corpo perante as circunstâncias que o privam a agir sem a luz. Demorei algum tempo a entender que o meu corpo sustinha a respiração por mim. Quando me forcei a inspirar, consegui finalmente espirrar.
Tentei replicar isto sem sucesso. Minutos depois, derrotado, acendi a luz.
Espirrei 3 vezes, poucos segundos após. 





(00:01:18) 
(00:07:18)


[3] desenho cego


"La acción que desencadena en el trazo del dibujante es similar al efecto producido por la bola sobre la mesa de bilhar una vez efectuada la primeira «atacada»2

O desenho cego é uma proposta de actuação onde se rejeita ver o suporte em que se desenha - por extensão, o que se desenha. 'Não ver' relaciona um espectro de acções entre sentidos voluntários e não-voluntários. Levou-me a criar uma acção onde coloco uma venda nos olhos e reponho o pó que varri para o espaço onde o tirei. Gosto que seja um gesto simbólico: não só devolvo mas também desenho, usando um coador - instrumento que separa o pó (deixando-o cair) de outras partículas varridas. Caminho com a mão na parede como a ponta de um lápis na superfície de uma folha. 



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1NASA Technical Reports Server (NTRS). Muscular activity and its relationship to biomechanics and human performance. Publicado em 1 de Fevereiro de 1994. 
2AA.VV. (1999) ESTRATEGIAS DEL DIBUJO EN EL ARTE CONTEMPORÁNEO. Madrid. Ediciones Cátedra