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30.6.20



     A partir de uma investigação com teor auto-biográfico, partindo do movimento migrante, reconhecendo-me deslocada da comunidade de origem e buscando reconhecimento num novo território, mas retraçando rotas exploradas por antepassados familiares, são propostos ensaios que transitem em outras dimensões espaciais, para além da territorialidade física, galgados na idéia de pós-memória.
     A teoria, estruturada pela professora romena, Marianne Hirsch, transita na prática da artista polonês-americana, Monika Weiss. Ela defende:  “A consciência de nossa marginalidade se eleva ao reino do significado através de nosso breve encontro com a memória e a história”. O que, então, significa estar “às margens”? 
Num contexto social, as margens me parecem serem transitadas pela população que carece de acessos. Nesse lugar, o poder da burocracia institucional se sobressai ao poder do “bom senso humano”.
      Percebo meu próprio corpo como uma espécie de “binóculo”. Quando estou no Brasil, aponto para Portugal, quando estou no Porto, aponto para a Ilha de São Miguel, quando estou na Ilha de São Miguel, aponto para o Brasil e assim percebo que, além do meu caso isolado, muitos outros, nesse mesmo território, estão sempre a apontar para outros lugares, formando uma malha invisível de trajetos sobre o território terrestre. Uma malha que não tem fronteiras nem sequer é preciso permissão de acesso. 


América: Desenho de instrução. 2020. Caneta sobre papel de infusor de chá.



O ato de apontar outro lugar denuncia a posição de deslocamento. Trazendo para a experiência íntima da pós-memória, volto aos anseios do meu bisavô, que em busca de “uma vida melhor”, cruzou o Atlântico no sentido para o Brasil. Agora, impulsionada por configurações políticas, represento uma nova geração do “retorno” nesse núcleo familiar. Assim, no desenho de instrução “América”, - realizado, simbolicamente, reaproveitando papel de infusor de chá, já que em período de reclusão social (devido a uma pandemia) havia acesso restrito aos materiais, - o ato de apontar surge a partir do ato do ancestral, mas logo percebo a identificação do ato no meu próprio estado migrante. 
Trazendo a fala do professor Paulo Luis Almeida, quando levanta a descoberta de neurônios-espelhos no cérebro, que são a “base da nossa capacidade de incorporar uma experiência” a partir do desenho, questiona-se se “deictic gesture” (gesto de indicar, apontar) representar um impulso transferido num intervalo de tempo que abraça gerações.  


América. 2020. Fotografia digital.


Me coloco, literalmente, às margens, indicando uma rota possibilitada pelas águas. Assim, habitando atualmente a cidade do Porto, vejo no rio Douro uma conexão de todos esses territórios para onde aponto. Na imagem, carregada de elementos simbólicos da cidade, não resta dúvida da minha localidade.
Volto à idéia de “sonho americano”, que eleva a falsa idéia da “terra livre”, ainda sustentada pelo atual neoliberalismo crescente nesses continentes, na busca por “uma vida melhor” e busco ressignificá-lo. Percebo também a democratização nos deslocamentos possibilitada pelo ato de sonhar, e assim, surge a idéia de que enquanto durmo, posso estar performando. A performance realizada no ato de dormir é explorada, aqui, como um "espetáculo" inacessível por terceiros,  portanto, particular e íntimo, mas utilizando do objeto "travesseiro", busco indicar as "travessias" possibilitadas pelo sonho. 



América: Ensaio de anti-monumento íntimo. 2020. Bordado sobre fronha em algodão.

22.5.20

PERFORMANCE, DOCUMENTO E DESENHO - Carolina Drahomiro






 Na busca por formas de observar a memória, encontrei na web, tutorial de telescópios caseiros onde dizia “formas seguras de observar o sol”. Assim, deu-se partida às tentativas projetuais de “formas seguras de observar a memória”. O ato surge no contexto do deslocamento do lugar de origem, num fluxo na contramão de antepassados familiares. A idéia de transportar/mudança remete à caixa de papelão e é neste objeto que procuro observar a memória que cruza comigo o Atlântico.




Documento, usando papel que já foi infusor de chá, a partir da fuligem da vela, o que é possível observar a partir do aparato criado para osbervação da memória.

2.5.20

DESENHO INSTRUÇÃO E PERFORMANCE - Instruções de/para Ana Sofia Ribeiro


INSTRUÇÕES DE ANA SOFIA RIBEIRO

Foram registradas em fotografias, onde procurei reproduzir a idéia de movimento do ato performativo, as instruções de utilizar um lápis como unidade de medida para encontrar o perímetro do meu quarto. 79 lápis. Esse foi o resultado suposto de medida do meu espaço íntimo, pois se somados (ou até subtraídos) todos os deslizes, ocorridos pela dificuldade em manter a postura, o número deve se alterar. Aliás, chego à conclusão de que 79 (lápis) é o único número que posso afirmar, com certeza, que não se aplica a este espaço.

Voltar a brincar de ligar pontos, também por instrução de ato performativo, me faz perceber o grau de tolerância, perfeccionismo e frustração que alimentamos na fase adulta. Em momento de reclusão, me faz perceber, mais uma vez, que nutrir a paciência é um dos maiores desafios atuais.





INSTRUÇÕES PARA ANA SOFIA RIBEIRO



Tirando partido do desenho técnico no AutoCad, coloquei em questão o ritmo e a intimidade com o espaço, considerando o momento de pandemia. Instrui para que, com uma vela acesa, fosse percorrido todos os ambientes da casa, esquivando-se dos móveis, sem deixar com que a vela se apagasse, controlando o ritmo da caminhada. Assim, a proposta colocaria em causa o incômodo de ter que proceder um ato num ritmo imposto. 
Ainda utilizando-se do suporte da vela, foi pedido para que, sobrepondo um papel, a uma altura que seria ajustada no ato, à chama, fosse desenhado o mapa do país da atuante. 
As instruções brincam com o "controle" e a espera de que percebamos a impossibilidade de controlar totalmente a situação. 














31.3.20

Retórica do Ato Performativo - Carolina Drahomiro




Chá de Calma. Bordado em infusões de chá de Camomila.


Chá de Calma. Frame de registro em vídeo.

Durante sete dias estive sozinha em casa, meio à uma situação inédita de pandemia, foi necessário recorrer à palavra de ordem: calma! Me fez lembrar o ritmo vagaroso da geração da minha avó, quem me ensinou, com o bordado, a paciência.
Também minha avó dizia que chá de Camomila serviria.





Todo dia ela faz tudo sempre igual e um desvio. Auto-retratos.


Ainda em isolamento social, crio uma nova relação com o espelho. Percebo que essa tecnologia é o primeiro ensaio para a cultura da "selfie". Reflete por dias e dias seguidos a mesma imagem, os mesmos atos e me acompanha nessa rotina alternativa que me foi imposta, datando hoje, 18 dias. Quando que eu deixo de ser eu e me torno apenas o reflexo de mim? 
O meu reflexo carrega o mesmo conteúdo, as mesmas memórias de mim?
Que trocas possíveis existem entre eu e o meu reflexo?
O ato desviante numa auto-representação pretende ultrapassar a barreira do "eu", numa manifestação de auto-cuidado necessário no momento que estamos vivendo (além de claro, o urgente cuidado a nível comunitário).





9.3.20

transferência de uso

O ato de arrastar, como o fazemos incontáveis vezes durante o dia após a popularização do smartphone, foi transferido para a imagem a partir do uso de caneta posca e água sobre o papel vegetal, que, por não permitir a aderência imediata da tinta, "rastreia" o movimento. 
No desenho fica perceptível a mudança de ritmo na repetição do gesto, não à toa, pois essa aceleração faz parte também do comportamento diante da mídia digital.   






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Acender + alongar trazido para a expressão corporal. 





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Ao pensar na manipulação da técnica do desenho no "lugar", somada à experiência na prática em arquitetura, pensou-se em aplicar ferramentas do desenho técnico no AutoCad para a esfera espacial "real". Nesse caso, partiu-se do comendo "mirror" (ou espelhar) para criar a assimetria entre os lados da imagem.