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30.6.20

Teresa Taf, Trabalho Final 2020


DESENHAR A PERFORMANCE


Esculpir o Gesto em busca da identidade própria







O projecto que agora apresento, na forma de vídeo projectado em três camadas de panos transparentes, onde o meu corpo em movimento, filmado com gestos lentos e coordenados, aparece repetido em planos sucessivos, ficando estes registados - como marcações desenhadas em linhas de luz azul e vermelha – nos painéis de tecidos. Por sua vez estas imagens são repetidas em espelho. A Performance é, pois, desenhada pelo corpo-próprio, donde o título do trabalho Desenhar a Performance, em alusão ao texto de Katrin Gatinger. Aqui, o corpo-próprio apresenta-se, por um lado, como princípio de individuação, na medida em que, através da sua gestualidade, o corpo é sempre epifania do eu, e por outro lado, pela sua capacidade de transformação tecnológica ou artística do mundo e da matéria, o corpo torna-se expressão da cultura e da civilização, repercutindo-se no tempo futuro sobre o mundo, a terra e os homens que a habitam, de modo imprevisível e irreversível. O resultado desta experiência é “o desenho de uma performance”, cujo gesto “esculpido” busca a identidade própria. 
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- O gesto tem aqui um importante papel na busca desta identidade e daí eu usar o termo “esculpir” o gesto, pois acredito que são os gestos singulares, livres, meditados e verdadeiramente nossos, que podem ter um impacto positivo, destacando os gestos realizados pelos artistas no seu processo de trabalho. Só conseguimos criar verdadeiramente no gesto de fazer com verdade e com liberdade. Vilém Flusser (1920-1991) especifica que o gesto é fruto de um querer e não de movimentos involuntários. Enquanto expressão de intenção é, também, expressão de liberdade.

(O ensaio teórico completo foi enviado em pdf)


Vilém FLUSSER(1994). Los Gestos: fenomenologia y comunicación. Barcelona: Herder
Katrin GATINGER (2009). “Dessiner la Performance”. In: Richard CONTE, Le Dessin Hors Papier. Paris: Sorbonne





Fotografias da instalação criada em sala escura com video projectado sobre três tecidos transparentes, paralelos entre si. 
























Uns minutos da instalação com projecção de video sobre três tecidos transparentes

 


29.5.20

Desenho Instrução e Performance  

INSTRUÇÕES ( LETÍCIA MAIA )ACÇÃO E DESENHO ( TERESA TAF )






RESPOSTA - TERESA. 

em construção : 


























22.5.20

Performance, Documento e Desenho - Teresa Taf

Portais para outro mundo.

"Estes desenhos (...) rompiam o fluxo temporal do acontecimento-obra, pois eram projectos que existiam, em simultâneo, antes e depois da obra realizada, mas, tal como as instalações, abriram um intervalo de sonho em que o espectador se poderia transportar sempre que quisesse e pela sua imaginação, para o interior de um canavial ou de uma seara e tornar suas as memórias de infância exploradas pelo artista nestas obras. "

Catarina Rosende, Alberto Carneiro, árvores, flores e frutos do meu jardim. Desenhos e Esculturas. 


A nossa interacção com a natureza é permanente, mas nas crianças, essa capacidade revela-se intuitivamente, de uma forma incrivelmente espontânea e natural. 

A estadia no campo, onde me encontro há dois meses, tem sido extraordinariamente reveladora dessa capacidade de fuga para outros mundos, principalmente o contacto do meu filho com a natureza.
Em qualquer espaço do jardim, nas fendas dos velhos muros de pedra e do tanque, nos troncos das árvores da quinta corroídos pelo tempo, imediatamente imagina possíveis itinerários de fantasia, infindáveis recursos de acesso ao impossível e ao absurdo. Reconheço, eu própria, esses mesmos paraísos que o meu filho agora descobre e de que se apropria, como eu o fiz na minha infância. 

A performance, como acção desviante, foi realizada por ele e registada em desenhos por mim - pela transferência da matéria presente através da pintura. O meu filho levou-a a cabo pela sua fantasia e imaginação, utilizando estratégias de simulação, em si mesmas já uma encenação do que vai acontecer, muito intuitiva nas crianças. Cada local registado em pintura pela Mãe, foi, no entanto, utilizado pelo filho como portal de passagem, de fuga, de refúgio, tal como em Alice no País das Maravilhas.

Como decorreu esta interacção da crianças com cada local, permanece o mistério insondável da fantasia e do sonho, mas, seguramente, possibilitadores da construção de mundos de recordações que se constituem como reservas inesgotáveis de felicidade que irão nutrindo, sustentando e tornando toleráveis as inevitáveis agruras que irão encontrar na sua vida adulta. A performance, que cada ponto de fuga poderá ter suscitado nas crianças, fica em suspenso, pois para o espectador que era eu, ela é invisível.





Registo do local onde são encontrados estes "portais". Vemos um jardim como uma criança a brincar e a mãe ao fundo . 




Os "Portais" :

































2.5.20

DESENHO, INSTRUÇÃO E PERFORMANCE

Proposta de instrução por Tereza Taf, realizada por Letícia Maia

 Esculpir o Interior



Já de inicio devo dizer, que encarei a instrução de Tereza como um convite para uma experiência, e como tal, alguns aspectos passaram despercebidos, uns foram desobedecidos e outros foram impossibilitados por conta do mal tempo (como o caso de pendurar o tecido na janela para que secasse).
Ao receber a instrução “Esculpir o Interior"passei um tempo refletindo sobre a escolha das palavras, esculpir imediatamente evoca uma ação no tempo e espaço, convida a uma materialidade, ao movimento ao mesmo tempo que situa uma prática artística. A palavra interior, aqui, se relaciona tanto com o corpo que está dentro dos tecidos, quanto com o que associamos de modo metafórico com o caráter mais subjetivo de nós mesmos.
Isso se afirma ao longo da instrução pois Tereza nos propõe "imaginar um útero, um casulo, uma trouxa embrulhada.” aproximando três possibilidades distintas, a gestação/nascimento, o criar casca/metamorfosear e um objeto (trouxa) que carrega algo misterioso em seu interior. Tereza evoca ainda a ideia de vazio palavra que, não por acaso, carrego tatuada no peito e que relaciono com o que é poroso, potente e mutável; o corpo.
Essa instrução necessita da colaboração de alguém para realiza-la, não é apenas um auxilio, mas uma ação em conjunto onde tanto quem amarra quanto quem fica dentro da trouxa estão implicados na ação do inicio ao fim. Convidei meu companheiro para realizá-la comigo, olhamos algo na internet mas achamos que seria mais interessante lidar com as informações da instrução.  
Estendemos os lençóis no chão, me despi e molhei o corpo com água quente, deitei-me no centro do lençol e Ivan começou a amarração. Não me senti em nenhum momento incomodada ou claustrofóbica, pelo contrário, é muito aconchegante estar envolvida pelos tecidos na posição fetal.
Ao longo da ação, confesso que tive bastante resistência em me imaginar renascendo, talvez eu estivesse mais próxima da “(trouxa) que carrega algo misterioso em seu interior” e essa imagem já me pareceu potente por si só. 
Logo no início, me lembrei de quando era criança e minha mãe colocava a toalha sobre minha cabeça para secar os cabelos, das inúmeras vezes que envolvi meus sobrinhos na toalha depois dos primeiros banhos, dos dias insones que passei cuidando do meu pai no hospital, não cabe aqui listar todas as memórias e pensamentos ativados, mas estar envolvida com os tecidos em volta do corpo formando essa “trouxa” me fez pensar muito em cuidado, tanto no cuidado de si como no cuidado com o outro.
Inevitavelmente fui levada a pensar no contexto que estamos vivendo, e de como estamos lidando de forma muito mais próxima com a morte, e por consequência de forma mais crua com a vida. É sem dúvida uma experiência de horror, essa que estamos vivendo, que muitas vezes nos tira a capacidade de narrar, de colocar em linguagem. 
Mais do que uma experiência de renascimento “Esculpir o Interior” me possibilitou uma experiência de cuidado. Diante da incerteza e da angústia do nosso momento, a vida se mostra como matéria efêmera que é.
Estamos feridos individual e coletivamente, precisamos aprender a cuidar para então começar a reimaginar possibilidades do por vir.

Obs: No vídeo, diferente do que foi proposto, grito a frase “NASCI DE NOVO” voltada para dentro do meu quarto, ao refletir um pouco mais e rever o material de registro resolvi deixar o vídeo sem som, sendo que a imagem do meu corpo por trás do tecido propõe um ato de contorno ou desenho silencioso.