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29.6.20

Trabalho final:  Ana Sofia Ribeiro - "Acidente"

Partindo de uma busca por decifrar o território que me envolve foi questionada a terminologia do espaço e do território. Dessa forma, Valongo, conhecido pelo seu vastíssimo vale, é descrito como um acidente geográfico e por essa razão a palavra acidente surge como potencial método para exploração do desenho e da performance. Assim tentei perceber o sentido do termo através do próprio dicionário, este afirmava dez tópicos descritivos do “acidente”, do qual a sua apropriação proporcionou a execução equiparada de desenhos e ações performáticas. Em adição à semântica, refleti sobre a matéria enquanto transferência do espaço geográfico para o papel, quer isto dizer que a partir da recolha de argila (moída) do vale, esta passou a pigmento e tornou visível o gesto. Por fim, o resultado da ação performática é devolvido ao seu estado de origem, sendo enterrado no mesmo local de onde viera.




Definição de acidente:
1. acontecimento casual ou inesperado; acaso
2. acontecimento que ocorre de forma repentina ou inesperada causando dano ou sofrimento; desastre; desgraça
3. incidente nefasto provocado de forma não intencional
4. MEDICINA reação patológica inesperada que agrava uma doença
5. irregularidade da superfície terrestre
6. distribuição irregular da luz
7. MÚSICA cada um dos sinais de notação que, precedendo uma nota na pauta, indicam uma alteração ascendente ou descendente da sua tonalidade
8. FILOSOFIA aspeto, qualidade ou estado transitório ou não essencial de algo
9. detalhe; pormenor
10. RELIGIÃO (teologia católica) plural na consagração eucarística, manifestações exteriores (cor, sabor e odor) que persistem após consagração do pão e do vinho; acidentes eucarísticos




 acidente in Dicionário infopédia da Língua Portuguesa [em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2020. [consult. 2020-06-22 09:44:29]. Disponível na Internet: https://www.infopedia.pt/dicionarios/lingua-portuguesa/acidente

19.5.20

PERFORMANCE, DOCUMENTO E DESENHO - Ana Sofia Ribeiro

Com o objetivo de refletir sobre as motivações e estratégias do desenho como arquivo e documento em contexto performativo, foi explorado o espaço “jardim”, no qual a primavera trouxe uma família de melros para o habitar. Assim a partir da imaginação é proposta a exploração do jardim através do olhar de um desses membros. Desse reconhecimento espacial saíram vários desenhos documentais das texturas de cada árvore, parede e chão. Também sugiram estudos de cor, pensando que cores seriam mais frequentes e quais as suas disposições quando em busca de comida ou abrigo. E por fim das formas, o próprio ninho é esboçado a partir de um desenho cego, alusivo dos primeiros estados de vida das crias. 















A ação decorre então consequente destes documentos, procurando criar um grau zero do ambiente natural e celebrante do nascimento. Foi assim enterrado o ninho com um pássaro morto dentro dele, num buraco de 30cm de diâmetro, onde o desenho documental é feito através de água em lousa que se vai evaporando e desaparecendo.  O próprio desenho vive neste limbo entre a vida e a morte e questiona se de facto pode ser considerado documentação da ação, uma vez que desaparece e ele mesmo pode ser pensado como desenho performativo. 


30.4.20


Desenho, instrução e performance: Ana Sofia Ribeiro em reposta a Carolina Gomes

I Ação



Foi-me proposto percorrer todas as divisões da minha casa, enquanto segurava uma vela acesa. Deveria também simultaneamente prestar atenção ao ritmo e ao tempo do circuito, sem deixar que a vela se apagasse. No decorrer da ação percebi que teria de controlar o movimento do corpo assim como o meu ritmo, para que este não provocasse correntes de ar entre o espaço e o próprio corpo. Da mesma maneira reparei que enquanto subia e descia escadas a minha respiração inconscientemente tornou-se também bastante fiscalizada e o olhar permaneceu fixado na chama, talvez por medo de que se apagasse ou de que ocorresse algum acidente. O tempo total foi de 3:14.24. e permitiu-me revisitar memórias de noites em que a tempestade fazia faltar a luz.


II Desenho



Também no segundo exercício o uso da vela foi recorrente como formador de processos de desenho. Assim através da aproximação do papel da chama formaram-se manchas escuras, no qual tentava movimentar horizontalmente para que este se assemelhasse à área do meu país, como pedido.  No decorrer do desenho na expectativa de que o papel ardesse mais facilmente procedi com cautela. Porém percebi rapidamente que o papel não ardia, levando-me até a encostá-lo demasiado à própria vela, fazendo com que esta se apagasse e manchasse-o com cera. Após ter terminado passei o dedo sobre o desenho criado onde reparei numa marca deixada pelo próprio dedo, ficando este coberto de pó preto


30.3.20



Retórica do ato performativo - Ana Sofia Ribeiro







































A partir de uma sequência de três imagens é proposta uma narrativa. A primeira descreve a ação de escrever uma carta a alguém, observa-se uma mão, uma caneta de cor sanguínea e uma folha de papel escrita. Na segunda, o ato de lamber a margem com cola de um envelope sugere o fecho da carta escrita e o envio da mesma, nesta é apresentada uma língua exposta num rosto recortado e um envelope por fechar. Na terceira, a abertura da carta pela segunda personagem tem como intenção a leitura após o envio, onde o texto é visível de forma clara e se nota o escorrer da caligrafia a partir do acumular de saliva.  
Ao analisar as estratégias do pensamento pressupõe-se que a primeira imagem gera uma expectativa da segunda e que consequentemente formula o resultado da terceira. É nos espaços vazios de tempo da não ação que é construída a expectação do futuro, uma vez que, é ao fundamentar crenças ou previsões, em relações de causa e efeito com base na norma, que se gera a possibilidade de criação de desvio e de surpresa do que não é esperado. Assim para que o inesperado aconteça tem de existir obrigatoriamente uma falsa confiança de conhecimento da ação. Pensar a retórica do ato performativo envolve questionar o que é expectável e tornar visível o inesperado.
Dado isto, o gesto de escrever foca-se no campo autoral individualista, na partilha do espaço privado e na exploração da identidade a partir da linguagem, quer isto dizer, que as documentações diaristas referenciais são pertencentes do espaço quotidiano, de convenções e do grau zero. Assim como a própria caligrafia revela características singulares/irrepetíveis do ser e a linguagem é potencialmente contemplativa. No entanto, se a escrita tem como objetivo o diálogo, é apenas pela ação de envio e de retorno que o monólogo passa a conversa, proporcionando uma reflexão sobre um não destinatário.
A imagem que se segue procura ser a isotopia, o espaço em que o espectador confia na sua perceção para julgar e adivinhar a sequência da narrativa e que simultaneamente possibilita o ambiente necessário para que a rutura ocorra. A língua exibe o remetente e a sua capacidade para passar a mensagem, isto é, sendo em sim mesma uma projeção da interpretação da língua-gem, se explorado o seu sentido físico, como aquilo que ajuda a produzir palavras, questiona-se o papel da saliva. Assim, ainda que a língua demonstre a causa do efeito, é a saliva ignorada que se torna o constrangimento para o resultado esperado.
Por fim, o desvio surge através da não escrita, da anulação do significado, do cancelamento da legibilidade e da supressão da expectativa. O espaço vazio é agora protagonista e responde até que ponto a imagem anulada se torna mais presente que a imagem compreendida? O remetente desaparece e o destinatário permanece oculto. Cria-se um jogo de associações e reconstruções mentais daquilo que fora omitido e a escrita passa a desenho. Se por um lado a cor da caneta ligado a semântica de sangue remete para a ideia de algo que é líquido e vermelho, a própria tinta escorre da caneta para o papel através do gesto. A língua também ela vermelha relembra que a própria saliva é líquida e o ato de lamber se associa ao ato fluido, de verter, de pingar e de escorrer encontrados no desenho. O contraste do branco do papel com o tom de vermelho da pele resulta na terceira imagem como uma metáfora reminiscente de “crescer água na boca”, “meter água” ou “mudar da água para o vinho”.
Em suma, ainda que levantadas questões em volta da anulação do significado, é através de um distanciamento que a escrita/mensagem e a sua conceção mental passam ser antes vistas como uma transmutação que decorre no final da narrativa ou até mesmo uma renovação/camuflagem do inicial. Logo, o resultado ainda que omita o primeiro conteúdo, é proposta uma visão metamórfica da escrita para o desenho, passando este assim a ser o foco da narrativa. Estes temas não sendo novos e tendo já sido explorados por outros artistas foram influenciadas por Luis Buñuel em Un Chien Andalou, em termos de questionamento do grau zero, por Emma Hauck em [letter] Darling Come e Laura Makabresku em ‘That time you went back there that last time’ quanto aos processos semióticos, por Barry Flanagan em A Hole in the Sea, Tom Friedman e Rivane Neuenschwander nos gestos retóricos e Lewis Carroll em Rebus quanto à metáfora. É a partir deles que as três imagens foram pensadas, tendo como objetivo explorar os campos da retórica do ato performativo e criar uma composição fundamentada.

9.3.20

TRANSFERÊNCIA-DE-USO


1º Transferência-de-uso de uma ação para os suportes e processos de desenho

A partir do verbo/ação “mastigar” foram exercidas transferências de ampliação do qual o corpo interage com o papel, imaginando-se ele mesmo dentro da própria boca. São exploradas formas e movimentos associados ao ato, utilizando de forma correspondente e simultaneamente as duas mãos sobre o meio abrasivo. Estas relacionam-se através dos gestos circulares e elevatórios, remetentes do abrir e fechar, da inserção da ideia de simetria, dando a esquerda, a direita, o cima e o baixo, associados ao espaço físico e por fim através do movimento consequente, como é o engolir. Assim pensando os atos de espelho do próprio corpo, o gesto surge como tradutor do ato que repensa a mancha e o contorno como extensão do corpo.






































2º Transferência entre duas ações de campos performativos distintos

Através da utilização das ações de “subir a escada” e de “agitar” manifesta-se numa folha recalcada uma fusão dos dois atos descritos por um desenho imprevisível e frenético. A performatividade do gesto propõe assim um impacto que forme momentos de pausa e de colisão inequívoca. O embate no papel mostra como as pressões de riscos aleatórios nas ocorrências de intervalos intercalados pelas pausas formam o mesmo ritmo e clico do corpo quando passa de degrau para degrau, que seguido do seu agitar expressa o sacudir do que fora calcado.

















































3º Redireccionamento de um ato conotado com os meios desenho para um espaço físico

Procurando desconstruir o espaço físico foi colocado o pó de mármore sobre o chão de canto de uma sala. O papel do canto torna-se relevante para o próprio gesto de acumulação da matéria, uma vez que o pó expõe um levantamento do contorno do próprio canto, desconstruindo-o para o bidimensional. Sendo ainda possível ver o resultado final no varrer desse mesmo canto.